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31
ago 2018
sexta-feira 20h30 Paineira
Temporada Osesp: Osesp 60 - Thomson e Steuerman


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Neil Thomson regente
Jean-Louis Steuerman piano


Programação
Sujeita a
Alterações
Wolfgang Amadeus MOZART
Concerto nº 24 para Piano em dó menor, KV 491
Ludwig van BEETHOVEN
Sinfonia nº 8 em Fá maior, Op.93

 

OSESP 60
Apresentação de uma hora, sem intervalo, seguida de uma conversa entre solistas, maestro e público.

INGRESSOS
  Entre R$ 50,00 e R$ 222,00
  SEXTA-FEIRA 31/AGO/2018 20h30
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil

Falando de Música
Quem tem ingresso para o concerto da série sinfônica da temporada da Osesp pode chegar antes para ouvir uma aula em que são abordados, de forma descontraída e ilustrativa, aspectos estéticos das obras, biografia dos compositores e outras peculiaridades do programa que será apresentado em seguida.

Horário da palestra: uma hora antes do concerto.

Local: Salão Nobre ou conforme indicação.

Lotação: 250 lugares.

Notas de Programa
WOLFGANG AMADEUS MOZART [1756-91]

Concerto nº 24 Para Piano em Dó Menor, KV 491 [1786] 
ALLEGRO
LARGHETTO
ALLEGRETTO 
31 MIN 
 
LUDWIG VAN BEETHOVEN [1770-1827]
Sinfonia nº 8 em Fá Maior, Op.93 [1812] /AS NOVE SINFONIAS 
ALLEGRO VIVACE E CON BRIO
ALLEGRETTO SCHERZANDO
TEMPO DI MENUETTO
ALLEGRO VIVACE 
26 MIN 
 
 
As obras do programa de hoje espelham-se de maneira simétrica e surpreendente: se o Concerto nº 24 Para Piano em Dó Menor de Mozart prenuncia o romantismo beethoveniano, a Sinfonia nº 8 em Fá Maior de Beethoven visita o estilo clássico mozartiano. E, se Mozart compôs um concerto de caráter misterioso e dramático enquanto compunha também uma ópera cômica, Beethoven compôs uma sinfonia leve e bem-humorada sucedendo outra mais impactante, e enquanto vivia momentos emocionalmente intensos. 
 
As duas obras foram compostas em tempos recordes: o concerto de Mozart em três semanas, e a sinfonia de Beethoven em quatro meses. Talvez não seja coincidência, afinal, que Beethoven tivesse grande estima por esse concerto de Mozart, inspirando-se nele para compor seu próprio Concerto Para Piano nº 3 e seu Trio Para Piano Op.1, nº 3, ambos também na tonalidade de Dó Menor (1).
 
 
MOZART
Concerto nº 24 Para Piano em Dó Menor, KV 491 
 
O Concerto nº 24 de Mozart foi escrito em março de 1786 e estreado no início de abril, com o compositor como solista – prodigiosamente, no mesmo mês, ele finalizara o Concerto nº 23, e estava concomitantemente trabalhando na ópera As Bodas de Fígaro, que teria sua première em maio. O Concerto nº 24 é o penúltimo de uma série de 14 obras do gênero que Mozart compôs e tocou para conquistar o público em seus anos iniciais em Viena (1782-6), e pode ser considerado o ponto culminante do conjunto (2). Ele é singular em vários aspectos, e possui algumas peculiaridades partilhadas com poucos outros concertos: apenas este e o Concerto nº 16 estão em tonalidades menores; somente este e o nº 14 possuem um primeiro movimento em tempo ternário – o que lhes confere uma instabilidade rítmica inicial incomum. Os sopros são utilizados de maneira mais generosa, sobrepondo-se muitas vezes às cordas. Há mais ambiguidades harmônicas e irregularidades melódicas, maior tensão na interação entre solista e orquestra, e a forma do primeiro movimento é mais longa e complexa – tendências que se manifestariam cada vez mais nas obras do Romantismo. Até os rascunhos refletem essa turbulência, revelando mudanças importantes empreendidas ao longo do processo composicional. Há mesmo quem reconheça no Concerto nº 24 um “momento beethoveniano” na produção de Mozart (3). 
 
 
BEETHOVEN
Sinfonia nº 8 em Fá Maior, Op. 93 
/AS NOVE SINFONIAS 
 
Aos 42 anos, Beethoven encarnava as características que hoje identificamos como tipicamente românticas: já um artista consagrado, conquistara a liberdade de compor conforme os desígnios de sua inspiração; havia se entregado – e ainda se entregaria – a sucessivas paixões impossíveis ou não correspondidas; e lutava contra o terrível destino de sua surdez. Sua música havia há muito tecido a ponte estilística entre o Classicismo e o Romantismo, e a nova expressividade dramática já se materializara claramente em muitas obras – como a Sinfonia nº 5, a Sonata "Ao Luar" ou a sonata Apassionata
 
Em 1812, enquanto compunha a Sinfonia nº 8, Beethoven viveu três episódios também distintivamente românticos: em julho, durante uma temporada de repouso em Teplitz – cidade de águas termais próxima a Praga, então refúgio de artistas e  intelectuais – ele escreveu a famosa carta “À Amada Imortal”, na qual declara seu amor – finalmente correspondido, mas ainda impossível – a uma mulher misteriosa cuja identidade permanece dúbia até hoje. Dias depois – e após dois anos de preparativos – ele conheceu Goethe (1749- 1832), de quem já musicara alguns poemas. Em outubro, o compositor provocou uma briga feroz com seu irmão mais novo, chegando às vias de fato e envolvendo até a polícia e autoridades locais, na tentativa de separá-lo de uma relação com uma mulher que acusava de imoral (4). 
 
A despeito desse contexto, a Sinfonia nº 8 possui um caráter alegre e humorístico, revisitando – não sem ironia – o estilo clássico de Haydn e Mozart. A orquestração e a duração são reduzidas – equiparando-se, no ciclo das 9 sinfonias de Beethoven, somente às proporções da Sinfonia nº 1 – e não há um movimento lento, usualmente mais expressivo. Somadas ao fato de a Sinfonia nº 8 ter sido estreada, em 1814, logo após a execução da Sinfonia nº 7, mais grandiosa, essas características provocaram uma recepção tíbia do público vienense. “É porque ela é muito melhor que a outra” – defendeu o compositor ao pupilo Czerny (1791-1857), completando: “um dia  eles a apreciarão” (5). Talvez Beethoven se referisse ao fato de a obra possuir vários elementos de fina sátira musical, perceptíveis apenas aos iniciados – como, por exemplo, a presença jocosa de um insistente Dó#, estranho à tonalidade da peça (6). 
 
A Sinfonia nº 8 foi composta a partir de materiais inicialmente concebidos para um concerto para piano – gênero ao qual, impossibilitado de ser o solista pela deficiência auditiva, Beethoven jamais retornaria. 
 
1. LEVIN, Robert D. “Mozart Keyboard Concertos”. In MARSHALL, Robert L. (ed). Eighteen-Century Keyboard Music. New York & London: Routledge, 2003, p. 320-358. 
2. KEEFE, Simon P. The Cambridge Companion to Mozart. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

3. JOHNSON, Paul. Mozart: A Life. New York: Penguin Publishing Group, 2013, p. 113-114. Vale lembrar que Beethoven ficou conhecido por seu processo criativo árduo e laborioso, revelado em seus inúmeros rascunhos para cada obra. 
4. O compositor viajou para Linz, onde residia o irmão Johann, especificamente para esse fim. A mulher era Therese Obermeyer, então empregada de Johann, e tinha uma filha ilegítima. Sob o argumento de que ela e o irmão mantinham uma relação amorosa indecorosa sob o mesmo teto, Ludwig conseguiu obter uma ordem junto às autoridades para bani-la da cidade. Johann encerrou a questão casando-se com ela (SWAFFORD, Jan. Beethoven: angústia e triunfo. Barueri: Amarilys, 2017. Tradução de Laura Folgueira). 
5. LOCKWOOD, Lewis. Beethoven’s Symphonies: An Artistic Vision. New York & London: W. W. Norton, p.170.

6. GECK, Martin. Beethoven’s Symphonies: Nine Approaches to Art and Ideas. Chicago & London: University of Chicago Press, 2017. 
 
JÚLIA TYGEL é pianista e professora na Faculdade de Música Souza Lima
e no Ensino à Distância da UFSCar. É doutora em Música pela USP com estágio 
na City University of New York como bolsista CAPES/Fulbright. 
 

Leia o ensaio "A Era de Beethoven", de Arthur Nestrovski, aqui.