15
set 2018
sábado 16h30 Ipê
Temporada Osesp: Fischer e Pahud


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Thierry Fischer regente
Emmanuel Pahud flauta


Programação
Sujeita a
Alterações
Jules MASSENET
Cenas de Contos de Fadas
Philippe MANOURY
Saccades - para Flauta e Orquestra
Hector BERLIOZ
Sinfonia Fantástica, Op.14
INGRESSOS
  Entre R$ 50,00 e R$ 222,00
  SÁBADO 15/SET/2018 16h30
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil

Falando de Música
Quem tem ingresso para o concerto da série sinfônica da temporada da Osesp pode chegar antes para ouvir uma aula em que são abordados, de forma descontraída e ilustrativa, aspectos estéticos das obras, biografia dos compositores e outras peculiaridades do programa que será apresentado em seguida.

Horário da palestra: uma hora antes do concerto.

Local: Salão Nobre ou conforme indicação.

Lotação: 250 lugares.

Notas de Programa

 

MASSENET

Cenas de Contos de Fadas

 

Duas anedotas que se contam sobre Massenet são emblemáticas. Quando venceu o Prêmio de Roma, em 1863, um dos membros do júri, Auber, comentou com outro, Berlioz: “Massenet irá longe, esse patife, quando tiver menos experiência!”. O prêmio era uma estadia na Itália que durou três anos e, se não lhe proporcionou “menos experiência” como queria Auber, certamente abriu os horizontes de Massenet, trazendo-lhe amigos que permaneceriam fieis para o resto da vida, e a chance de conhecer não apenas a música de compositores italianos, mas também a dos alemães que faziam sucesso em Roma (incluindo os barrocos Bach e Handel). Ao voltar da Itália, a sua ascensão em casa não foi meteórica, mas construída passo a passo, solidificando-se no final do século, quando ele, já professor do Conservatório de Paris, gozava da reputação de melhor compositor de música para a cena na França. Sua produção era constante e metódica, sem os momentos de falta de inspiração e desespero que tanto perturbavam a maior parte dos artistas da sua época.

 

Em 1878 foi eleito para o Institut de France, uma honra enorme, tanto mais que era muito jovem. Saint-Saëns, sete anos mais velho, tinha certeza de que seria ele o eleito, e julgou a indicação uma afronta. Massenet, conciliador, mandou-lhe um telegrama simpático: ”Meu querido colega, o Instituto acaba de cometer uma grande injustiça”, Saint-Saëns replicou de imediato: “Concordo plenamente”. O episódio diz muito de Saint-Saëns, mas mais ainda de Massenet, personalidade afável e modesta. Como professor, não impunha suas ideias aos alunos, preocupando-se apenas em fornecer-lhes as ferramentas necessárias para o ofício. Como artista buscava o sucesso, é claro, mas se recusava a virar celebridade, frequentemente deixando de ir às estreias das próprias obras.

 

As suítes orquestrais são eminentemente música de programa, em que o quadro pintado à nossa frente é sempre teatral e muito expressivo. No caso de Cenas de Contos de Fadas, é um universo mágico que é evocado, com sustos pouco aterrorizantes, cores, luzes e brilhos, em que cada tema que captura o ouvido é logo recoberto por um véu de outras belezas equivalentes. A harpa e os metais têm lugar de destaque, e a percussão é explorada com particular habilidade, talvez lembrança da época em que Massenet trabalhou como percussionista de orquestra.

 

O cortejo inicial é anunciado orgulhosamente por trompetes, e oscila entre o solene e o circense; em seguida surge a evocação dos salões parisienses, cheios de vida e animação; “Aparição” é um momento particularmente climático, embebido de irrealidade, delicado, porém sombrio. O final, uma autêntica orgia sonora, é envolvente, dinâmico, excitante. A suíte demonstra as qualidades que caracterizam Massenet: um dom melódico extraordinário, instrumentação eficiente, temperada com toque de exotismo; a busca por concisão, simplicidade e efeito. A suíte é matizada, muito bem orquestrada, lírica e empolgante, e seduz desde a primeira audição. Sua falta de pretensão certamente colaborou para o relativo esquecimento que o século XX dedicou a obras que não eram revolucionárias, herméticas ou pelo menos desagradáveis.

 

 

BERLIOZ

Sinfonia Fantástica, Op.14

 

Se existe um tema que nos parece hoje a personificação do espírito romântico, esse é justamente a grande história de amor, de preferência platônica ou não correspondida. A gênese da Sinfonia Fantástica é totalmente ligada ao cerne deste espírito. Em 1827 a atriz irlandesa Harriet Smithson se apresentou com sua companhia de teatro em Paris, no papel das protagonistas femininas das peças Romeu e Julieta e Hamlet, de Shakespeare. As representações foram em inglês, língua que Berlioz não dominava, mas ele se apaixonou perdidamente pelas obras do dramaturgo e pela atriz, a quem escreveu cartas durante um ano, sem obter resposta.

 

Shakespeare viria a inspirar algumas das composições mais importantes de Berlioz, e sua paixão pela talentosa intérprete seria o mote para a Sinfonia Fantástica, que retrata a paixão de um jovem artista por uma mulher inacessível. Ele tenta se afogar no ópio, mas a dose, se não chega a matá-lo, lhe traz loucas visões da amada, traduzidas em sons. A imagem da mulher, vertida em motivo musical, é uma ideia fixa que o atormenta cruelmente.

 

A obsessão do próprio Berlioz acabaria sendo recompensada: em 1833 Harriet e Hector se casariam, sob as bênçãos de Liszt. Como toda união baseada em pura idealização, esta teria um final infeliz. A Sinfonia, por sua vez, é hoje considerada a maior obra do compositor e um dos marcos da música instrumental francesa. Ela se divide em cinco movimentos: o primeiro, “Devaneios – Paixões” trata das diferentes sensações que o amor desperta, mesmo antes de se concretizar: a ternura, a alegria, as angústias, os ciúmes, a devoção. No segundo, “Um Baile”, o rapaz finalmente encontra a amada, em meio a uma animada festa. “Cena Campestre” evoca um raro momento de paz e tranquilidade, em que o jovem se dá ao luxo de alimentar esperanças de felicidade futura, ligeiramente perturbadas por pressentimentos nefastos. “Marcha ao suplício” é o relato de um pesadelo: entorpecido, ele sonha que matou a amada e, condenado à morte pelo crime, marcha para o cadafalso. A lâmina da guilhotina corta seus últimos pensamentos amorosos. Finalmente, em “Sonho de uma Noite de Sabá”, o artista se vê no meio de sombras assustadoras, feiticeiros e monstros reunidos para seu funeral. A amada aparece entre os seres do mal, ela mesma transfigurada.

 

Em sua época, Berlioz sofreu muitas críticas de colegas como Debussy e Mendelssohn, que lhe censuravam a capacidade de encantar o ouvinte de uma maneira que lhes parecia fácil e trivial.  Na verdade, Berlioz estudava seriamente, e seu perfeccionismo beirava a mania. Frequentemente um achado musical que parecia óbvio era o resultado de muita elaboração; seus críticos deploravam ainda a ligação estreita de sua música com a pintura e a literatura, o que viria a ser reconhecido como traço característico do Romantismo como um todo. Como comenta Charles Rosen: “Poucos contestam sua grandeza: o que se questiona é sua competência. Isso é muito estranho; é difícil ver como Berlioz pode ser tão grande como sabemos todos que ele é, se é tão incompetente quanto tantos acham”.

 

Hoje em dia, a reputação de Berlioz foi plenamente reestabelecida, e ele é respeitado não apenas como teórico quanto como compositor de criatividade excepcional e méritos musicais inquestionáveis. A Sinfonia Fantástica é uma das obras orquestrais mais tocadas e gravadas de todos os tempos. O Selo Digital Osesp disponibiliza, gratuitamente, uma gravação feita em 2016 pela Orquestra do Festival de Campos do Jordão, com regência de Arvo Volmer.

 

LAURA RÓNAI é doutora em Música, responsável pela cadeira  de flauta transversal

na UNIRIO e professora no programa de Pós-Graduação em Música. 

É também diretora da Orquestra Barroca da UNIRIO.

 


Leia o texto "Novos espaços de audição para o público e interação entre solista e orquestra no concerto para flauta 'Saccades', de Philippe Manoury" aqui.


Confira o vídeo em que o compositor Philippe Manoury discorre sobre a sua obra "Saccades - Para Flauta e Orquestra".

 


Leia a entrevista com Philippe Manoury, realizada por Renato Roschel, aqui.


Leia a entrevista com Emmanuel Pahud, realizada por Renato Roschel e flautistas da Osesp, aqui.