02
dez 2018
domingo 19h00 Coro da Osesp
Coro da Osesp e Maria Guinand


Coro da Osesp
Maria Guinand regente
Natalia Chahin oboé barroco


Programação
Sujeita a
Alterações
Juan GUTIÉRREZ DE PADILLA
Exsultate justi in Domino
Dante ANDREO
Salve Regina
Gaspar FERNÁNDES
A Belén me llego, tío
Juan GARCÍA DE CÉSPEDES
Convidando está la noche
Miguel ASTOR
Alleluia
Aylton ESCOBAR
Vieira: Santo Antonio prega aos Peixes - Uma Cerimônia [Encomenda Osesp]
Juan GUTIÉRREZ DE PADILLA
Salve Regina
César Alejandro CARRILLO
O Magnum Mysterium
Tomas TORREJÓN / VELASCO
Aladas Jerarquías
Juan GUTIÉRREZ DE PADILLA
¡Ah, siolo Flasíquiyo!
Tambalagumba (Negrilla)
Alberto GRAU
Magnificat - Gloria
Léo BROUWER
Cántico de Celebración

 

Este concerto conta com recursos de acessibilidade (Áudiodescrição). Para quem utiliza esses recursos, veja como se inscrever aqui (Para os demais interessados em assistir este concerto, reservas aqui).

INGRESSOS
  R$ 57,00
  DOMINGO 02/DEZ/2018 19h00
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil
Notas de Programa

Cantos de Celebração — Música Latino-Americana do Século XVI ao XXI

 

JUAN GUTIÉRREZ DE PADILLA [1590 - 1664]
Exsultate justi in Domino [s/reg]
5 MIN

DANTE ANDREO [n. 1949]
Salve Regina [1992 - rev 2010]
3 MIN

GASPAR FERNÁNDEZ [1566 - 1629]
A Belén me llego, tío [s/reg]
3 MIN

JUAN GARCÍA DE CÉSPEDES [1619 - 1678]
Convidando está la noche [s/reg]
4 MIN

MIGUEL ASTOR [n. 1958]
Alleluia [s/reg]
3 MIN

AYLTON ESCOBAR [n. 1943]
Vieira: Santo Antonio prega aos Peixes - Uma Cerimônia
10 MIN

 

/INTERVALO


JUAN GUTIÉRREZ DE PADILLA [1590 - 1664]
Salve Regina [s/reg]
6 MIN

CÉSAR ALEJANDRO CARRILLO [n. 1957]
O Magnum Mysterium [s/reg]
4 MIN

TOMÁS TORREJÓN Y VELASCO [1644 - 1728]
Aladas Jerarquías [s/reg]
4 MIN

JUAN GUTIÉRREZ DE PADILLA [1590 - 1664]
¡Ah, siolo Flasíquiyo! (Negrilla) [s/reg]
4 MIN

JUAN GUTIÉRREZ DE PADILLA [1590 - 1664]
Tambalagumba (Negrilla) [s/reg]
4 MIN

ALBERTO GRAU [n. 1937]
Magnificat - Gloria [2007]
7 MIN

LEO BROUWER [n. 1939]
Cántico de Celebración
5 MIN

 

 

CANTOS DE CELEBRAÇÃO

Nesta época do ano, quando estamos perto das festas natalinas, é adequado interpretar este repertório festivo de música coral da América Latina, escolhido entre obras sacras e profanas dos séculos xvi, xvii, xx e xxi. Além disso, o programa será enriquecido pela estreia mundial da obra concebida sobre um dos Sermões do padre Vieira, Santo Antônio Prega aos Peixes, de Aylton Escobar (Brasil).


Para mim é um grande prazer e uma grande honra poder dirigir novamente o extraordinário Coro da Osesp na magnífica Sala São Paulo.


Do repertório do Barroco Americano interpretaremos motetos, villancicos (canções natal inas) e negrillas selecionados do vasto legado de compositores como Juan Gutiérrez de Padilla (México, 1590-1664), Juan García de Zéspedes (México, 1619-1678), Gaspar Fernández (Portugal/México, 1566-1629) e Tomás Torrejón (Peru, 1644-1728).


Todos estes compositores representam um período glorioso da composição coral e vocal em nosso continente. Em suas obras está contida a essência mesma do que se chamou de Barroco Americano.


Fazer uma seleção não foi fácil, pois existem inúmeros tesouros que permanecem escondidos em manuscritos ainda pouco conhecidos.


Foram incluídas duas obras sacras do compositor Juan Gutiérrez de Padilla, Exsultate Iusti in Domino e Salve Regina para iniciar cada uma das partes do concerto.


Nestes motetos podemos apreciar o trabalho policoral e contrapontístico de um grande mestre, bem como os contrastes de texturas e de temperamento, de acordo com o texto. Cada um é expressão de um estilo de composição repleto de sutilezas e de alto valor estético.


Em contraste com estas grandes obras, incluímos algumas negrillas o guineos e villancicos, de forma estrófica e em castelhano. Nessas pequenas joias da nossa música colonial, podemos apreciar o humor e a malícia desses textos profanos e populares, bem como a vivacidade rítmica e o contraste entre as partes corais e as seções dedicadas aos solistas. Cada uma tem suas particularidades: Aladas Jerarquías e A Belén me Llego Tío são dois villancicos polifônicos e bastante elaborados, enquanto Ah, Siolo Flasiquiyo, Tambalagumba e Convidando Está la Noche representam o villancico festivo; em dois deles o compositor pretende retratar os escravos africanos trazidos ao Novo Mundo, imitando sua música e sua maneira de falar, razão pela qual são chamados de guineos ou negrillas.


A obra de que faremos a estreia, Vieira: Santo Antônio Prega aos Peixes, de Aylton Escobar, é uma proposta cênico-musical em que o compositor nos faz ouvir e refletir sobre este texto maravilhoso e profundo, que exalta a simplicidade e a espontaneidade enquanto satiriza o poder e seus desvios, o que é declamado desde o palco cerimonial. O oboé é tratado como uma trombeta antiga para anunciar os momentos importantes do texto, enquanto as vozes do coro cantam os textos latinos e gradualmente se dissolvem ao finalizar a obra.


Acompanham esta estreia criações de outros compositores latino-americanos contemporâneos.


Três obras escritas em linguagens convencionais, ainda que muito pessoais, representam os compositores Dante Andreo, Miguel Astor e César Carrillo.


Duas outras obras mais inovadoras e ousadas são as composições de Alberto Grau e Leo Brower. Ambas apresentam uma visão festiva de textos latinos como Magníficat-Gloria ou Alleluia, utilizando elementos rítmicos latino-americanos como síncopas, contratempos e ostinati, agregados harmônicos que se combinam com melodias líricas, texturas polirrítmicas e articulações variadas. O programa reflete a diversidade e o colorido de vários estilos da música coral latino-americana, nos quais se plasma de maneira evidente a riqueza da nossa história e da nossa cultura.


MARÍA GUINAND
é regente coral e de orquestra, professora
universitária, docente e líder nacional e internacional
de projetos corais. Especializou-se no repertório
coral dos séculos xx e xxi, com ênfase na Música
Coral Latino-Americana e também na literatura
sinfônico-coral do Barroco aos dias de hoje.

 


SANTO ANTÔNIO, AOS PEIXES


Era para ser uma obra coral a cappella com duração aproximada de dez minutos.


Mas o aparecimento de um oboé barroco alterou os planos iniciais. De imediato interferiu na escolha do argumento dramático, estranhando textos modernos e concisos em favor da fala setecentista; além disso, para garantir a beleza do seu timbre, fez sérias reservas às explorações sonoras e às construções experimentais da música atual; por fim,dada a sua importância histórica e grande expressividade musical, ajudou a estender um pouco a duração da obra. Veio para atuar como strumento obbligato.


A releitura dos Sermões e de outros escritos do Padre Antônio Vieira, em bom português, então veio a calhar; não porque se buscasse situar, por assim dizer, um exigente oboé barroco, mas pela certeza de que ali encontraríamos afirmações e juízo de grande interesse que viriam ao encontro das queixas da sociedade atual, pois que ainda são muitas as aflições que sacodem o mundo e, entre nós, se levantam em cuidados pela revisão urgente das ordens e seus progressos.


A prédica de Santo Antônio aos peixes – Des Antonius von Padua Fischpredigt, como aparece em alemão, citada entre tantas das suas metáforas e nas inspiradas recriações poéticas do período romântico – é bem conhecida e tem sido bastante lembrada no campo da música. Numa rápida conferência, saltam os exemplos de maior luminosidade na obra de Mahler, na Sinfonia nº 2 - Ressurreição e na 3ª Sinfonia, e ainda nas Oito Canções Des Knaben Wunderhorn. Note-se, porém, que no rico e bem contrastante terreno da música popular, ainda hoje também encontramos partituras dedicadas ao clássico Vieira, do seu original em língua portuguesa adaptado para espetáculos teatrais de boa acolhida em Lisboa, por exemplo. Por nós, contudo, o Sermão de Santo Antônio aos Peixes, parte do admirável texto original, proferido no mês de junho de 1654, em São Luís do Maranhão, para enfim chegar ao público da Osesp neste dezembro de 2018.


Jesuíta que em si somava os talentos e posturas do filósofo e do diplomata, do prosador e do agitador político de fala incendiária, do orador inspirado e do intérprete da fé católica que tudo vinha esclarecer, o Padre Antônio Vieira não economizava o verbo em suas prédicas, apenas equilibrava forças entre a esperada pronúncia religiosa, alegórica e metafórica, com oportunas ironias que despertavam os seus ouvintes ao mesmo tempo que acertavam o alvo dos poderes terrenos investidos em mal postas autoridades à época.


A fascinante escrita de Vieira – tão brilhante na exortação aos fiéis quanto contrita em razão das falhas humanas, entretanto, sem se distrair no momento de rilhar ironias contraos maus e desonestos que detivessem o poder e o lucro – em si mesma parece cantar, fluindo música própria; traz beleza que merece ser dita claramente, não cantada ou escandida em notas musicais como se fosse garoa verbal e não cachoeira forte. Por isso entendemos a participação de um ator para dizer Vieira, atuando sobre o púlpito cerimonial. Os textos ilustrativos que compõem sua prédica, retirados das Escrituras, estes são cantados pelas vozes em coro no latim eclesiástico, alevantados na expressão dramática dos seus significados.


A partitura se compõe de duas partes ininterruptas e um final agregador. A primeira conclama os ouvintes a fazerem como faz o sal na terra: impedir a corrupção; enaltece os peixes desde o início da Criação e os compara aoshomens, enfatizando a clarividência de Santo Antônio que soube domar a fúria das paixões humanas.

 

A segunda parte inicia por acusar os defeitos dos peixes, pois que os grandes devoram os pequenos e nisso se comparam aos piores seres humanos que muito mais se comem uns aos outros; e segue reafirmando a queda dos arrogantes e soberbos, porque “quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem”.

 

No início da obra e para o seu final o oboé irrompe num chamado solene e festivo que se desdobra à maneira dos clarins antigos, arautos espalhados pela grande nave das igrejas em ocasiões cerimoniais. A música, por sua vez, recorre a formas inspiradas nas antigas celebrações católicas do grande período que compreende a alta renascença e o início do barroco. São antífonas que, no latim das vozes em coro, ilustram as palavras do celebrante. As hirtas harmonias ora recorrem a surpreendentes resoluções modais, ora se entregam à dramaticidade das cruas dissonâncias. À medida que se aproxima do Amém final, a música escolhe as transparências sonoras e não pretende ainda encerrar sua participação, mas, ao modo de uma congregação, convida todo o público a seguir cantando: suavemente todos abandonam a nave ou o teatro e a música se dissolve na lonjura.

 

AYLTON ESCOBAR
é compositor e maestro paulistano com obras
publicadas dentro e fora do país. Foi aluno
de Osvaldo Lacerda e Camargo Guarnieri na
Academia Paulista de Música, onde estudou
composição, e hoje ocupa a cadeira n° 25. Foi
Diretor da Escola de Música Villa-Lobos (RJ), da
Universidade Livre de Música (atual EMESP) e do
Festival Internacionais de Campos do Jordão.

 

Confira o Selo Digital Osesp Aylton
Escobar em: osesp.art.br/discografia