Temporada 2019
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Sinfonia n° 5 em Dó Menor, Op.67
11
abr 2019
quinta-feira 20h30 Pau-Brasil
Temporada Osesp: Stutzmann rege A Paixão segundo São Mateus


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Nathalie Stutzmann regente
Robin Tritschler tenor (Evangelista)
Stephen Powell barítono (Jesus)
Martina Janková soprano
Aude Extrémo contralto
Mirko Ludwig tenor
Leon Kosavic barítono
Coro Infantil da Osesp
Coro Acadêmico da Osesp
Coro da Osesp


Programação
Sujeita a
Alterações
Johann Sebastian BACH
A Paixão Segundo São Mateus, BWV 244

Participação de Sabah Teixeira como "Judas" e "Pilatos"; João Vitor Ladeira como "Pedro"; e Erick Souza como "Caifás".

INGRESSOS
  Entre R$ 55,00 e R$ 230,00
  QUINTA-FEIRA 11/ABR/2019 20h30
Sala São Paulo
São Paulo-SP - Brasil
Notas de Programa

JOHANN SEBASTIAN BACH [1685-1750]
A Paixão Segundo São Mateus, BWV 244 [1727]
  PRIMEIRA PARTE
    UNÇÃO EM BETÂNIA
    SANTA CEIA
    NO MONTE DAS OLIVEIRAS
70 MIN


/INTERVALO


  SEGUNDA PARTE
    FALSO TESTEMUNHO
    DIANTE DE CAIFÁS E PILATOS
    ENTREGA E FLAGELAÇÃO
    CRUCIFICAÇÃO
    ENTERRO
100 MIN


JOHANN SEBASTIAN BACH
A Paixão Segundo São Mateus, BWV 244


Na maioria das vezes, quando lemos que alguma obra artística é a “mais importante de seu gênero”, trata-se de um exagero retórico. Mas, neste caso, estamos diante da exceção que confirma a regra. A Paixão Segundo São Mateus é universalmente considerada a coroação da obra de Johann Sebastian Bach, o ápice da produção de grande escopo do período barroco e a mais convincente peça sacra da música ocidental. Nela, Bach não economizou recursos musicais ou força expressiva. Cada recitativo contém um achado, cada uma das árias é um repositório de ideias singulares, e ainda que possam ser executadas como peças independentes em recitais (e frequentemente o são), a Paixão completa é muito mais que a soma de suas partes.


Durante os séculos XVII e XVIII, outros compositores já haviam se dedicado a esse tipo de oratório, que conta, de maneira bastante direta, a história da Paixão de Cristo. Bach escreveu cinco Paixões para a Sexta-feira Santa, das quais, desgraçadamente, três se perderam. De modo semelhante ao que acontecia nas óperas, em que recitativos serviam para adiantar o relato, e árias eram o veículo dos sentimentos, os textos bíblicos que contam os eventos aparecem nos recitativos, e as árias exploram textos da época, que comentam os acontecimentos descritos ou põem em relevo as emoções dos protagonistas. Em duas partes, a Paixão retrata, na primeira, a traição de Judas, a última ceia e a prisão de Jesus em Getsêmani. A segunda aborda sua crucificação e morte.


Aqui, o material básico é extraído dos capítulos 26 e 27 do Evangelho Segundo São Mateus, intercalado com versos de várias fontes, principalmente da pena do poeta Christian Friedrich Henrici [1700-64], conhecido como Picander. É a composição mais longa e elaborada de Johann Sebastian Bach. A partitura requer um grupo vocal e instrumental impressionante para a época: dois coros (e mais um coro infantil) e duas orquestras, com oboés, oboés da caccia e d’amore e flautas em pares dobrados. As partes cantadas pelos coros são ancoradas em trechos retirados do hinário luterano, largamente conhecidos pela congregação da Igreja de São Tomás, em Leipzig, para a qual a obra foi composta. Mas mesmo essas melodias tão familiares aparecem em arranjos novos que, ao proporem desenvolvimentos harmônicos surpreendentes, lhes dão uma roupagem suntuosa. Outras vezes, frequentemente dialogando com os solistas, as vozes coletivas emulam a multidão, que participa da ação, explica partes da trama, se revolta ou se deixa levar pela dor que atinge toda a humanidade, como na ária para soprano e contralto So Ist mein Jesus nun gefangen [Assim meu Jesus foi Agora Encarcerado, em No Monte das Oliveiras], em que a turba, aos gritos, implora pela libertação de Jesus.


Alternando com as partes corais, os solistas recebem auxílio dos instrumentos da orquestra, em duetos de desesperadora beleza, como na conhecidíssima ária Erbarme dich, mein Gott [Tem Piedade de mim, Senhor, em Diante de Caifás e Pilatos], em que um violino solitário pontua o mais angustiado pedido de perdão de todos os tempos. Pouco depois, na ária Aus Liebe will mein Heiland sterben [Por Amor Quer Morrer meu Salvador], a linha de soprano se torna ainda mais plangente devido ao acompanhamento de uma única flauta desolada, que parece flutuar no espaço. As duas melodias entrelaçadas sobre acordes inexoráveis dos sopros, que lembram uma marcha fúnebre, mas sem o “chão” do baixo contínuo e o suporte habitual das cordas, criam uma instabilidade tão perturbadora quanto profundamente comovedora.


Recursos de caracterização e pintura de palavras como esses são inúmeros e constantes no desenrolar da trama. Ao contrário das árias das outras personagens, normalmente acompanhadas por órgão e reforçadas por instrumentos de baixo, na música que cabe ao personagem Jesus são apenas as cordas que lhe servem de base, criando um efeito que Leonard Bernstein chamou de “aura”, uma sonoridade etérea e especial que efetivamente o separa dos outros, reles mortais. É apenas no momento exato de sua morte (em Crucificação), em que clama aos céus “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, que a aura se quebra: tendo ele também uma natureza mortal, acompanhado apenas pelo baixo e sem o apoio de seu séquito de anjos, pela primeira vez substituindo a fórmula de tratamento “Meu pai” pela mais servil e menos íntima “Meu Deus”, Jesus se iguala a todos. Logo em seguida, um acorde extremamente dissonante intervém, como a foice que ceifa a vida, e o Evangelista explica, em alemão, a imprecação de Jesus (utilizando a mesma melodia em outro tom, como se traduzisse as palavras). Tais efeitos, apesar de sutis em sua simplicidade, são poderosos em suas implicações e não podem deixar de abalar o ouvinte mais atento.


Invenções deste tipo se espalham generosamente por toda a Paixão. Elas são tantas, e de tal impacto emotivo, que o oratório consegue o milagre de, sendo profundamente ligado às escrituras sagradas, atrair em igual medida cristãos e não-cristãos, realizando o ideal de tolerância e união entre os povos. Em um documentário sobre Bach feito pela BBC em 1997, o diretor cênico Jonathan Miller tenta explicar esse poder da Paixão Segundo São Mateus: “Mas é a música que expressa isso, é aquele violino… não importa se você é ateu ou judeu, sendo um membro educado da civilização ocidental europeia, essa é a história mais famosa que existe, e está na sua corrente sanguínea como nenhuma outra. E acontece de ser a mais intensamente dramática de todas as histórias, que nunca falha como drama. Um clérigo praticante diria que a razão pela qual nunca falha é porque tem uma verdade eterna, e esta verdade é religiosa, e estamos nos entregando a ela, porque estávamos tentando resistir à crença religiosa que existe em nós. Mas não, não é disso que se trata. É algo inelutável, tenhamos fé ou não, que é o fato de que estamos aqui para sofrer, e que nossa profissão neste mundo é morrer”.


LAURA RÓNAI
É doutora em Música, responsável pela cadeira
de flauta transversal na UNIRIO e professora no
programa de pós-graduação em Música. É também
diretora da Orquestra Barroca da UNIRIO.